O desafio de custear e precificar um produto.

Uma questão importantíssima, na organização e gestão da produção, é um temido aspecto do produto chamado custo. É dele que vamos tratar um pouco.

Há tempos que se sabe que o mercado é quem estabelece o preço de um produto. Raramente alguém se dispõe a pagar muito mais por algo, isto comparando-se com os preços de seus equivalentes no mercado. De acordo Sandra Tocantins, analista do SEBRAE,

É suma importância conhecer todos os elementos, as ferramentas e as estruturas de custos e preço de venda, notadamente num momento que o mercado é quem estabelece o valor que está disposto a pagar pela aquisição dos bens. É importante também verificar o regime tributário adotado na empresa para cálculo das alíquotas dos impostos e contribuições, assim, é recomendável consultar o contador da empresa para obter esses dados de forma mais detalhada.¹

Sendo assim, como não se pode superestimar os lucros, a saída é monitorar os custos para produção de bens ou serviços, da maneira mais realista possível. Vamos a algumas perguntas a serem feitas no seu planejamento de custos:

  • Os custos diretos estão estimados corretamente?
  • Todos os insumos estão computados nos custos?
  • Além dos custos diretos, os gastos indiretos (gerais) estão sendo computados?

Sobre os custos diretos, consideremos o que já foi escrito na edição anterior (veja aqui). Mas a maior parte dos produtos demandam também materiais que não entram diretamente na fabricação. Aqui cabe falar de outros insumos, geralmente necessários para que a entrega ocorra bem, para asseio da mercadoria, conservação ou outros, mas não aplicáveis diretamente à fabricação.

Por exemplo, as embalagens. Plástico-bolha, caixas, papéis para embrulho, fitas adesivas, fitas de amarração, flocos de isopor, etiquetas e outros são materiais não formam o produto em si. Mas sem eles é quase impossível entregar mercadorias. Para atribuir o seu custo, basta calcular uma certa proporção deles, conforme as características das entregas, verificar o preço de reposição e atribuir às mercadorias produzidas. Outra forma é adicionar esses valores nas tabelas de preço de venda porque, geralmente, só são aplicados quando se vende.

Já para os gastos indiretos, ou seja, os custos gerais da empresa, a atribuição não é tão simples. Primeiro avalie quanto custa mensalmente a fábrica “parada”, como se ficassem todos de braços cruzados. Esses custos incluem salários, encargos sociais, taxas e licenças de funcionamento, gastos com contabilista, aluguel do prédio (mesmo que seja próprio convém estimar, como se fosse de terceiro), energia elétrica, cafezinho, refeições, IPVA e manutenção e depreciação de veículos e máquinas etc.. A lista costuma ser longa. Portanto, não deixe escapar nada.

Essa massa de gastos deve ser rateada sobre tudo o que se fabrica mensalmente, incidindo no custo de cada item produzido. Para ficarmos apenas num cálculo mais simples, uma forma possível é pegar a somatória desses gastos fixos, dividir pela quantidade de horas produtivas da fábrica e, de posse desse custo/hora, aplicá-lo aos produtos fabricados, proporcionalmente à quantidade de materiais e de tempo gasto para produção de cada item. Com isso, já se pode ter uma ideia aproximada de gasto geral absorvido no produto. Mas dessa forma, lembre que as horas ociosas, sem produção, são “prejuízo”.

Lembremos sempre que quem determina o preço das mercadorias em grande parte é o mercado e, por isso, ser ponderado na atribuição desse custeio. Pelo menos na hora de calcular preços, pois pode resultar em perda de oportunidades de lucro (preço baixo demais em relação ao mercado) ou rejeição da mercadoria por preço, pois aplicando-se o markup (margem sobre o custo) almejado, pode resultar em preços fora da realidade do mercado. Na hora do cálculo deve-se considerar a lucratividade possível de um produto. Há muito tempo, já nos anos 1990, o então professor da FGV Wolfgang Schoeps observava que sob certas condições, a absorção a priori das despesas fixas pelas linhas de maior lucratividade pode ser um poderoso instrumento para enfrentar a concorrência².

A Administração não é uma ciência tão exata como a Geometria. Requer inteligência e análise de fatores diversos, o que se configura em maior desafio ao administrador. Ter ferramentas administrativas flexíveis e amigáveis é muito importante, principalmente para pequenas empresas onde capitais, margens de lucro e oportunidades são sempre mais escassos do que para as grandes corporações. Mãos à obra!

LEIA TAMBÉM: 
Administre bem sua produção (1).

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REFERÊNCIAS:

(1) Fonte: SEBRAE/AP. Custo e Preço de Venda na Indústria. Disponível em: https://bit.ly/2fSbTFL.

(2) O Método do Custeio Direto. RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 32, n. 3, jul-ago 1992. Disponível em http://www.fgv.br/rae/artigos/revista-rae-vol-32-num-3-ano-1992-nid-44733/.